Marcelo Fonseca/Brazil Photo Press/Folhapress

O
papa Francisco fez referência ao racismo, à intolerância religiosa e às
vítimas da boate Kiss em seu discurso logo após a Via Sacra, um dos
atos centrais da Jornada Mundial da Juventude, na noite desta
sexta-feira (26), em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro.
De acordo com o pontífice, os preconceitos racial e religioso são
"cruzes" que o mundo atual carrega e que acabam suscitando
questionamentos entre os católicos acerca da fé na Igreja e em Jesus
Cristo. Ele também pediu orações para os familiares dos 242 jovens que
morreram no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS).
O santo padre mencionou ainda outros temas frequentemente debatidos
por instituições religiosas e pela sociedade civil, tais como a
dependência química, as vítimas da violência urbana, a fome "num mundo
que todos os dias joga fora toneladas de comida", a corrupção política e
religiosa, entre outros.
"Com a Cruz, Jesus se une ao silêncio das vítimas da violência, que
já não podem clamar, sobretudo os inocentes e indefesos; nela Jesus se
une às famílias que passam por dificuldades, que choram a perda de seus
filhos, ou que sofrem vendo-os presas de paraísos artificiais como a
droga; nela Jesus se une a todas as pessoas que passam fome, num mundo
que todos os dias joga fora toneladas de comida; nela Jesus se une a
quem é perseguido pela religião, pelas ideias, ou simplesmente pela cor
da pele; nela Jesus se une a tantos jovens que perderam a confiança nas
instituições políticas, por verem egoísmo e corrupção, ou que perderam a
fé na Igreja, e até mesmo em Deus, pela incoerência de cristãos e
ministros do Evangelho", disse.

Francisco
iniciou seu discurso lembrando o Ano Santo da Redenção, em 1984, quando
o então papa João Paulo 2º entregou aos jovens a cruz que se tornaria
um dos principais símbolos da JMJ.
Nos últimos dois anos, "A Cruz da Jornada" percorreu várias cidades
brasileiras, como lembrou o próprio pontífice ao fazer três perguntas
aos milhares de peregrinos que lotam a praia de Copacabana: "O que vocês
terão deixado na Cruz, queridos jovens brasileiros, nestes dois anos em
que ela atravessou seu imenso País? E o que terá deixado a Cruz de
Jesus em cada um de vocês? E, finalmente, o que esta Cruz ensina para a
nossa vida?".
Antes de mencionar problemas sociais, o papa disse aos fiéis que
"ninguém pode tocar a Cruz de Jesus sem deixar algo de si mesmo nela e
sem trazer algo da Cruz de Jesus para sua própria vida". A cruz, segundo
o chefe da Igreja Católica, é um símbolo que reúne "o sofrimento e o
pecado do homem".
"Ele acolhe tudo com seus braços abertos, carrega nas suas costas as
nossas cruzes e nos diz: Coragem! Você não está sozinho a levá-la! Eu a
levo com você. Eu venci a morte e vim para lhe dar esperança, dar-lhe
vida", disse.
História do Brasil

Ao discursar sobre a Cruz da Jornada, Francisco lembrou do fato de que o Brasil já se chamou "Terra de Santa Cruz".
"A Cruz de Cristo foi plantada não só na praia, há mais de cinco
séculos, mas também na história, no coração e na vida do povo brasileiro
e não só: o Cristo sofredor, sentimo-lo próximo, como um de nós que
compartilha o nosso caminho até o final. Não há cruz, pequena ou grande,
da nossa vida que o Senhor não venha compartilhar conosco", afirmou.
Houve um pequeno erro no texto lido pelo papa, que disse ter sido
"Terra de Santa Cruz" o "primeiro nome dado ao Brasil". Na verdade, a
primeira nomenclatura dada logo após o descobrimento, em 1500, foi "Ilha
de Vera Cruz", sendo o território anteriormente chamado de "Pindorama"
--nome dado pelos indígenas.
Por fim, o pontífice convidou a multidão de jovens a "se contagiar
pelo amor de Cristo", a levar para a Cruz peregrina "alegrias",
"sofrimentos" e "fracassos".